Um trânsito mais inclusivo começa pela educação dos condutores

Nos últimos anos, o debate sobre a acessibilidade vem tomando novas dimensões. Não se trata somente de recepcionar pessoas com deficiência por meio de obras de adaptação e de mobilidade realizadas nos espaços públicos. A inclusão envolve possibilitar a existência plena e com os mesmos recursos disponíveis para toda a sociedade. A começar pelas ferramentas de comunicação. Se a língua materna no Brasil é o português, para um deficiente auditivo, por exemplo, torna-se fundamental o aprendizado da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras). Estima-se que há cerca de 10 milhões de brasileiros com deficiência auditiva, dependentes exclusivamente de Libras para se comunicar, segundo dados do IBGE. É por isso que a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis) defende não a inclusão em classes comuns, mas a existência de escolas bilíngues, com salas em que sejam ensinadas a linguagem de sinais e o português escrito.

Porém, como o aprendizado social não se restringe às salas de aula do ensino regular, muitas vezes lições essenciais para a integração completa dos deficientes na sociedade são esquecidas. Tomemos como exemplo o simples fato de aprender a dirigir. A Lei 8.160/1991 pensou em como proteger motoristas surdos ao sugerir que os carros conduzidos por eles levem o Símbolo Internacional de Surdez na parte traseira. Esse símbolo recomendado é uma orelha com um traçado no meio e um fundo que pode ser preto ou azul. O objetivo é alertar os demais condutores que o motorista daquele carro não responderá a eventuais sinais sonoros, como as buzinas, por exemplo, indicando que a opção nesses casos é sinalizar utilizando os faróis. Mas, antes da etapa prática, é preciso observar a formação teórica adequada parar esses motoristas, atentando-se aos estímulos multissensoriais, além de se preocupar com a interação verbal estabelecida com o instrutor. Dessa forma, busca-se adaptar as exigências de conteúdos teóricos e práticos estipuladas pelos órgãos competentes.
Para proporcionar a uma pessoa com deficiência um processo de formação proveitoso e com a mesma qualidade oferecida aos demais alunos, o Detran de São Paulo passou a seguir o Programa de Atenção à Acessibilidade, firmado com a Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência. A iniciativa oferece vídeos em que há um intérprete de Libras, que ajuda o condutor a entender como é o processo para se habilitar. Essa foi a primeira entre várias ações que ampliam a oferta de serviços e de materiais voltados ao aprimoramento da experiência desses cidadãos no papel de condutores, que ainda incluem iniciativas de organizações privadas, como a Procondutor.

A empresa, que desenvolve soluções exclusivas para a formação teórica, reciclagem e especialização de condutores, conta com um assistente virtual que orienta os postulantes a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) com deficiência auditiva a percorrer o conteúdo teórico necessário para obter a habilitação. Ao longo das aulas interativas – realizadas em uma plataforma com vídeos, infográficos e simulados –, o assistente virtual insere o público de maneira adaptada, permitindo que eles obtenham amplo aproveitamento do curso. Essa ação é uma forma de valorizar a responsabilidade social das empresas que atuam nesse segmento e atende a uma das exigências da Lei Brasileira de Inclusão, que estende a acessibilidade também para as plataformas em linha, garantindo às pessoas com deficiência acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes adotadas internacionalmente.

O desafio da inclusão é uma nova fronteira na busca por uma sociedade mais igualitária e humana. Essa perspectiva leva em conta os espaços, os ambientes e os recursos que devem ser acessíveis para todos os cidadãos, proporcionando oportunidades iguais. No caso específico da educação para o trânsito, a acessibilidade dos materiais pedagógicos cria condições que asseguram a participação de pessoas com deficiência nessa importante etapa para a obtenção da CNH. Vivemos um tempo de transformação de referências e, no caso dos Centros de Formação de Condutores (CFCs), é preciso que estejam preparados para atender toda a comunidade.

Escrito por Claudia Moraes, diretora de produtos da Procondutor

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